O Mito da Infalibilidade: porque precisamos falar sobre medo e incerteza na maturidade

Por Cláudia Danienne, sócia-fundadora da startup Somos 50+, psicóloga organizacional, empresária e consultora, chairperson do Comitê de Pessoas da Amcham Brasil no Rio de Janeiro

No ambiente de negócios, fomos treinados para aplaudir o topo do pódio, mas somos analfabetos em acolher o processo e a dor de quem fica pelo caminho. Vivemos sob a ditadura da alta performance, onde se fala exaustivamente sobre vencer, bater metas e manifestar um empoderamento inabalável. Mas o que fica por trás da derrota? Existe a dor coletiva, o luto de uma nação ou de uma corporação inteira, mas há algo ainda mais devastador: o silêncio individual. O peso esmagador que carrega aquele que sabe que errou exatamente onde mais treinou para acertar. A escolha mal calculada, a falta de decisão no segundo decisivo, a estratégia que ruiu. Julgamos como se o profissional na arena fosse um algoritmo programado para a perfeição, esquecendo que não somos máquinas. Para muitos, esse erro pontual transmuta-se em um luto silencioso carregado por uma vida inteira, o estigma do fracasso que paralisa e adoece.

Essa engrenagem de cobrança desumana atinge seu ápice quando olhamos para o profissional 50 mais. Há um absurdo social implícito de que, ao cruzar meio século de vida, o indivíduo precisa habitar o pódio definitivo da carreira. Exige-se dele a estabilidade absoluta, a resposta cirúrgica e uma armadura emocional inquebrável, transformando a maturidade no estágio final de um jogo onde errar é considerado um crime corporativo.

O resultado dessa pressão é uma autocobrança sufocante. Sentir medo diante da velocidade tecnológica, incerteza sobre os rumos do mercado ou insegurança diante das transformações do próprio tempo não é um sinal de obsolescência; é a vida acontecendo em sua totalidade. Se até os atletas de elite, amparados pela melhor infraestrutura do planeta, falham sob a pressão dos holofotes, por que exigimos dos profissionais maduros uma infalibilidade robótica?

Na Somos 50+, nós rejeitamos a premissa de que o valor de um profissional expira ou é definido pelo placar de um dia ruim. A verdadeira governança humana e o ESG focado na longevidade exigem um olhar acolhedor para a maturidade. Isso significa entender que o direito de ser vulnerável e de recomeçar não tem prazo de validade. É um erro estratégico das lideranças tratar a experiência como sinônimo de imunidade ao erro ou ao medo.

A maturidade real não se consolida na coleção de vitórias invictas, mas na sabedoria de ressignificar os próprios lutos e falhas. Perder faz parte da estratégia. Sentir incerteza faz parte do desenvolvimento. O papel das empresas e de consultorias como a nossa é estender a mão para que o profissional 50 mais entenda que ele não é o seu pior dia. Afinal, tanto no futebol quanto no mercado de trabalho, a vida não é um campeonato de tiro curto a ser ganho de forma impecável; é uma travessia de resistência a ser humanamente acolhida.

Maturidade profissional reside na capacidade de se qualificar continuamente e “levantar” após as quedas com inteligência emocional, sem romantizar falhas, mas reconhecendo-as como parte do aprendizado. A jornada da vida é um equilíbrio entre erros e acertos que constrói um legado duradouro e uma existência feliz.

É preciso oxigenar a mente: expandir os diálogos honestos, cercar-se de amigos, manter o autocuidado ativo e recusar o isolamento que alimenta a depressão. A parálise diante do erro é o verdadeiro adversário, o movimento com propósito é a cura.

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