Antipsicóticos e antidepressivos podem favorecer ganho de peso, resistência à insulina e diabetes tipo 2, e é nesse grupo que o estudo com 218 mil adultos, publicado em 16 de outubro no Journal of the American Heart Association, associa o uso de GLP-1 a menor risco de infarto e morte. Para a endocrinologista e metabologista Elaine Dias JK, PhD em Endocrinologia e Metabologia pela USP, o achado expõe o custo do cuidado fragmentado.
Adultos com transtorno mental grave, diabetes tipo 2 e obesidade que usam medicamentos da classe GLP-1 apresentaram menores taxas de infarto, insuficiência cardíaca e morte do que pacientes com o mesmo perfil que não usam esses medicamentos. É o que mostra um estudo publicado online em 16 de outubro no Journal of the American Heart Association, conduzido por pesquisadores da Universidade de Washington em St. Louis.
O trabalho analisou 218.043 adultos com transtorno mental grave, diabetes tipo 2 e obesidade em uso ativo de antipsicóticos ou antidepressivos, a partir de registros de 73 organizações de saúde na base TriNetX. Os pacientes que usavam GLP-1 foram comparados a um grupo de perfil equivalente que não usava a classe, por pareamento estatístico.
A diferença de risco em três anos foi de 6,5 pontos percentuais a menos em mortalidade por qualquer causa, além de 1,8 ponto percentual a menos em insuficiência cardíaca e 1,0 ponto percentual a menos em infarto do miocárdio. Os resultados se mantiveram consistentes após o ajuste para o uso de outras duas classes de medicamentos para diabetes. Os maiores benefícios foram observados entre usuários de semaglutida e tirzepatida.
Um trabalho publicado no JAMA Psychiatry em agosto de 2026 chegou à conclusão semelhante por outro caminho. A análise, com mais de 1,5 milhão de participantes pareados, mostrou que a introdução de GLP-1 em pessoas com transtorno mental grave esteve associada a menor mortalidade em quatro anos e a menos eventos cardiovasculares maiores, incluindo infarto, AVC e insuficiência cardíaca.
Por que o corpo fica de fora
Para a endocrinologista e metabologista Dra. Elaine Dias JK, PhD pela USP, o achado tem peso porque expõe uma separação que a medicina costuma praticar há décadas, e ela explica como isso acontece na prática. “O uso prolongado de antipsicóticos costuma vir acompanhado de ganho de peso, resistência à insulina e alteração de colesterol, e poucos especialistas olham para isso. O foco no sintoma psiquiátrico ocupa todo o tempo, e o peso vira uma consequência esperada, quase aceita”, afirma.
A médica faz uma ressalva que considera inseparável do achado: o estudo não é argumento contra o tratamento psiquiátrico. “Não se trata de interromper o tratamento, que é indispensável para essas pessoas. Trata-se de acompanhar o metabolismo de quem o faz. Nenhum paciente deveria ter que escolher entre a saúde mental e a saúde do corpo”, enfatiza a Dra. Elaine.
O resultado da falta desse acompanhamento, segundo ela, é uma população que envelhece antes do tempo. “São pessoas de 40 anos com o corpo metabólico de 60. Elas não morrem de esquizofrenia ou de depressão grave. Morrem de infarto, de insuficiência cardíaca, de complicações do diabetes. O estudo mostra exatamente isso: quando alguém finalmente trata o corpo dessa população, a mortalidade cai.”
A médica faz uma ressalva metodológica importante. “É um estudo observacional, então não prova causa e efeito. Mas o tamanho da amostra, a consistência dos achados e a convergência com outros trabalhos recentes apontam na mesma direção. O cuidado fragmentado custa vidas, e observamos isso no dia a dia da prática clínica.”
O músculo que o peso esconde
Quando o emagrecimento finalmente acontece, aparece um risco do outro lado. “Ao iniciarem tratamento com GLP-1, os pacientes perdem peso, e parte dessa perda pode vir de massa muscular. Se ninguém mede, ninguém percebe”, explica a Dra. Elaine.
A condição tem nome. “A sarcopenia é caracterizada pela perda progressiva de força e massa muscular e está associada a comprometimento da mobilidade, aumento do risco de quedas e fraturas e maior probabilidade de eventos cardíacos”, diz a médica.
Um estudo brasileiro com 132 idosos acompanhados por 10 anos, publicado em 2022 na Scientific Reports, mostrou que o baixo índice de massa muscular dobrou o risco de mortalidade no período. O Brasil está envelhecendo rápido, o que amplia o tamanho do problema: segundo o IBGE, o país passou de 15,2 milhões para 33,0 milhões de pessoas com 60 anos ou mais entre 2000 e 2023, e em 2070 37,8% da população estará nessa faixa etária.
É exatamente por isso que o acompanhamento não pode se limitar à balança. “O cenário mostra a necessidade de uma avaliação que vá além do peso corporal, considerando a composição corporal e a preservação da massa muscular como indicadores fundamentais da saúde durante o envelhecimento. Músculo é vida”, acrescenta a médica.
Para a Dra. Elaine, um paciente com obesidade e diabetes não é um paciente de balança e glicemia, somente. “É um paciente com risco cardiovascular, composição corporal, sono, saúde mental e força muscular, tudo no mesmo corpo. Tratar a obesidade sem olhar o corpo inteiro é tratar pela metade”, afirma.
Sobre a Dra. Elaine Dias JK
Endocrinologista e metabologista, doutora em Endocrinologia e Metabologia pela USP (CRM 137974 | RQE 69672). Fundadora e diretora da Clínica Elaine Dias JK, na Rua Oscar Freire, 2.250, nos Jardins, em São Paulo. Atua no tratamento de obesidade, diabetes, doenças da tireoide e distúrbios hormonais, com foco em emagrecimento e longevidade saudável. É palestrante em congressos nacionais e internacionais e autora de publicações científicas.
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