Por Fabio Ongaro, economista italiano e empresário no Brasil, CEO da Energy Group
O vento soprou gelado em São Paulo na segunda-feira seguinte à eleição presidencial do Brasil. Na Bolsa, aparentemente, esqueceram de “fechar as janelas”. A vitória de Lula foi recebida com queda das ações, alta do dólar e aumento dos juros futuros. O mercado apresentou sua avaliação com a delicadeza habitual de quem precisa desmontar posições antes do almoço.
Depois do primeiro turno, os investidores haviam premiado a vantagem de Flávio Bolsonaro. Depois do segundo, fizeram o movimento contrário. A preferência ficou evidente. A capacidade de prever quatro anos de governo, nem tanto. Entre uma cotação e uma conclusão sobre o futuro existe um caminho que merece ser percorrido.
Seria superficial chamar toda essa oscilação de emocional. Investidores colocam dinheiro em risco e avaliam diferenças entre programas, equipes e prioridades. Seria igualmente precipitado transformar o pregão de segunda-feira em demonstração de que Bolsonaro garantiria prosperidade e Lula produziria deterioração. O preço registra uma expectativa. Não autentica sua realização.
A reação combina avaliações econômicas, revisão de apostas e mecanismos de mercado. Quem comprou esperando determinado resultado pode precisar vender quando ele não acontece. A pressa amplia movimentos. Ao mesmo tempo, preocupações com gastos, dívida e intervenção estatal podem justificar uma reavaliação duradoura. Esses componentes convivem na mesma tela, sem identificação individual.
A pergunta interessante, portanto, é outra: excluída a reação inicial, seria tão diferente se Bolsonaro tivesse sido eleito? Poderia ser. Credibilidade fiscal tem valor. Um governo que convença investidores de sua capacidade de estabilizar a dívida pode obter melhores condições de financiamento. Isso favorece o investimento e a atividade. Mas a confiança inicial funciona como crédito: oferece tempo para executar. Não dispensa a execução, muito menos transforma promessa em resultado.
As campanhas apresentaram orientações distintas. Lula defendeu a continuidade do arcabouço fiscal, dos investimentos públicos e das políticas sociais. Flávio propôs uma nova regra fiscal, redução da estrutura estatal, cortes de despesas e diminuição de impostos. Essas diferenças importam. Para dimensioná-las, porém, seria necessário conhecer seus efeitos completos sobre receitas e despesas.
Na reta final, os dois lados ampliaram ofertas de benefícios e alívios. A defesa do ajuste conviveu, na campanha de Flávio, com compromissos de preservar programas sociais, manter ganhos reais do salário-mínimo e reduzir tributos. Lula acrescentou iniciativas às políticas existentes. Houve grande capacidade de identificar beneficiários. A identificação dos financiadores recebeu atenção menos entusiasmada.
Isso não torna os programas equivalentes. Exige apenas que ambos sejam examinados com uma calculadora. Cortar ministérios pode melhorar a administração, mas quanto economiza diante do ajuste necessário? Reduzir impostos pode estimular a atividade, mas como compensar a receita? Ampliar programas pode atender necessidades legítimas, mas qual financiamento sustenta sua continuidade?
Com Lula eleito, essas perguntas passam a ter endereço definido. Crescimento, arrecadação e controle de despesas precisam formar uma trajetória convincente. Contar antecipadamente com receitas produzidas por um crescimento ainda incerto é uma maneira confortável de fechar apresentações. Para fechar o orçamento, costuma ser necessário um pouco mais.
Os mercados continuarão revendo suas avaliações. Uma equipe respeitada pode melhorar expectativas. Medidas inconsistentes podem destruí-las. Bolsonaro talvez começasse com maior crédito entre investidores, mas precisaria sustentá-lo. Lula terá de demonstrar capacidade de reduzir a desconfiança. Nenhum sobrenome resolve, por conta própria, a relação entre dívida, juros, receitas e despesas.
Lula responderá politicamente por suas escolhas. A conta econômica, porém, será paga pela população. E não apenas pelos empresários que acompanham o dólar entre duas reuniões. Juros elevados dificultam crédito e investimento. Quando a inflação avança, quem vive com renda apertada tem menos condições de absorver os aumentos ou proteger seu dinheiro.
Quem tem patrimônio dispõe de alguma defesa. Quem chega ao fim do mês contando moedas precisa decidir o que deixará de comprar. A inflação engole primeiro a margem de quem quase não tinha margem alguma. No supermercado, a perda de poder de compra transforma conceitos econômicos em escolhas bastante concretas.
Responsabilidade fiscal também é responsabilidade social. Prometer proteção sem cuidar de seu financiamento pode devolver ao beneficiário uma cobrança disfarçada nos preços. A eleição autoriza um governo a decidir. Depois, cada promessa precisa encontrar seu lugar no orçamento. Caso contrário, encontra seu caminho até o bolso de quem menos pode pagar.
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Sites: www.energygroup.com.br
Sobre Fabio Ongaro
Fabio Ongaro iniciou sua carreira como empresário há mais de 30 anos, ainda na Itália, tendo passado por países como Inglaterra e Estados Unidos até chegar ao Brasil, onde consolidou seus negócios em 2002, começando por um escritório de 10 metros quadrados emprestado. Economista de formação, Ongaro é, atualmente, CEO na Energy Group, uma holding composta por empresas que oferecem soluções em: assinatura de veículos premium; consultoria e gerenciamento em seguros; gestão de recursos humanos e soluções integradas de tecnologia; intermediação e consultoria de negócios. Além disso, ocupa o cargo de vice-presidente de finanças da Câmara de Comércio Italiana de São Paulo – Italcam.





