Com alta de 118% em duas décadas, doença crônica exige abordagem clínica individualizada e a Dra. Elaine Dias JK, PhD em endocrinologia pela USP e metabologista, comenta o impacto de novas terapias e debate sobre acesso no SUS

 

O avanço da obesidade no Brasil segue em ritmo acelerado e já configura um dos principais desafios de saúde pública do país. Dados recentes da pesquisa Vigitel, conduzida pelo Ministério da Saúde, indicam que a prevalência da obesidade aumentou 118% entre 2006 e 2024, atingindo cerca de um quarto da população adulta. Já as projeções do Atlas Mundial da Obesidade 2025, realizado pela Federação Mundial da Obesidade, sinalizam que quase 31% dos adultos brasileiros vivem com obesidade. As estimativas são de que, até 2030, a doença deva crescer 46,2% entre as mulheres e 33,4% entre os homens.

Os números reforçam a urgência de mudar a forma como a sociedade e o sistema de saúde encaram o problema. “A obesidade deixou de ser uma questão estética há muito tempo. É uma doença crônica, multifatorial e complexa. Embora a atividade física seja essencial para a saúde, casos de obesidade instalada raramente se resolvem apenas com caminhadas, exigem estratégias baseadas em ciência e acompanhamento clínico rigoroso”, explica a médica.

 

Da revolução dos análogos de GLP1 e GIP à democratização dos tratamentos

 

O tratamento da obesidade vive uma mudança de paradigma com a chegada dos análogos de GLP-1 e GIP. Diferente de abordagens do passado, essas medicações atuam diretamente nos mecanismos biológicos que regulam a saciedade e o comportamento alimentar.

“Essas substâncias ajudam o paciente a alcançar uma perda de peso sustentável ao corrigirem disfunções metabólicas. Isso reduz drasticamente o risco de comorbidades graves, como diabetes tipo 2, hipertensão e eventos cardiovasculares”, destaca a especialista. Ela ressalta, porém, que o diagnóstico deve ser profundo: “O IMC isolado não conta a história toda. É preciso avaliar a composição corporal via bioimpedância e circunferência abdominal. Existem pacientes com peso normal, mas que são metabolicamente obesos e correm riscos altos”.

Um dos pontos centrais da discussão atual é o acesso a essas terapias de ponta. O debate sobre versões genéricas e a incorporação no sistema público ganhou força com o anúncio de um projeto piloto da farmacêutica Novo Nordisk, que prevê o uso de semaglutida em centros selecionados do Sistema Único de Saúde (SUS).

A iniciativa visa gerar evidências sobre o impacto social e econômico do tratamento moderno na rede pública. “A democratização dessas terapias é uma vitória para a longevidade. Ao tratarmos a obesidade na base, minimizamos gastos futuros do Estado com hospitalizações e procedimentos complexos decorrentes das complicações da doença”, avalia a Dra. Elaine.

 

Prevenção: o conceito do “descascar mais e desembalar menos”

 

Embora o tratamento clínico seja vital para quem já vive com a doença, a prevenção continua sendo o pilar da saúde integral. A Dra. Elaine Dias JK sugere três frentes de ação:

-Combate ao ambiente obesogênico: estruturar a casa e o trabalho para que alimentos ultraprocessados não sejam a opção mais fácil em momentos de ansiedade.

-Foco na densidade nutricional: priorizar alimentos frescos e ricos em fibras, que auxiliam na saciedade natural.

-Saúde inflamatória: evitar gorduras trans e excesso de açúcar, que inflamam o organismo e elevam o cortisol, um dos motores da compulsão alimentar.

 

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