Fabio Ongaro, vice-presidente de finanças da Câmara Italiana do Comércio – Italcam, economista e CEO da Energy Group, aponta que agro brasileiro já é altamente produtivo. O acordo pode torná-lo também mais sofisticado e integrado.

A discussão pública sobre o acordo Mercosul–União Europeia concentrou-se nas salvaguardas europeias como se o Brasil estivesse diante de um bloqueio disfarçado. O debate foi dominado por uma narrativa defensiva: cotas para carne, limites para açúcar, restrições ao etanol. Mas, segundo Fabio Ongaro, vice-presidente de finanças da Câmara Italiana do Comércio de São Paulo (Italcam), economista e CEO da Energy Group, essa leitura é parcial. “O verdadeiro impacto do acordo não está no número de toneladas autorizadas. Está no que ele pode provocar dentro do mercado agro brasileiro”, ressalta.

Ongaro pontua que a União Europeia não é o principal destino das exportações agrícolas brasileiras. China e Ásia têm peso maior em carnes e grãos. “Isso significa que o efeito direto das cotas europeias sobre o volume total exportado é relativamente limitado. O que muda não é a quantidade, mas o padrão”, destaca o VP de Finanças da Italcam.

De acordo com o economista e empresário no Brasil, a Europa funciona como referência regulatória global. Suas exigências de rastreabilidade, controle sanitário e critérios ambientais tendem a se tornar benchmark internacional. “Atender a esses requisitos não é apenas acessar um mercado específico, é elevar o nível de organização e governança da cadeia produtiva. Isso gera efeitos internos consistentes, como: produtores mais estruturados que ganham vantagem competitiva; a formalização que tende a aumentar; a gestão e o controle de qualidade que se tornam diferenciais estratégicos”, enfatiza Ongaro. E acrescenta que o agro brasileiro já é altamente produtivo. O acordo pode torná-lo também mais sofisticado e integrado.

Quanto ao receio de que exportações ampliadas reduzam a oferta interna e pressionem preços, Ongaro comenta que é importante lembrar que o Brasil é estruturalmente superavitário em alimentos. “O mais provável é uma segmentação maior: produtos premium direcionados à exportação e grande parte da produção mantendo abastecimento regular do mercado doméstico”, explica o VP da Italcam.

Para ele, trata-se de especialização, não de escassez. As salvaguardas europeias são resultado de dinâmicas políticas internas do bloco. O desafio brasileiro é essencialmente econômico e estrutural. “O produtor nacional convive com crédito mais caro do que concorrentes globais, infraestrutura logística desigual, complexidade tributária e insegurança regulatória. Esses fatores afetam margens de forma muito mais relevante do que qualquer limite de cota”, ressalta Ongaro.

O economista acredita que se o acordo vier acompanhado de melhorias no ambiente doméstico — infraestrutura, segurança jurídica, simplificação tributária e acesso a financiamento competitivo — o agro poderá ampliar valor agregado, não apenas volume exportado.

“Hoje, o Brasil é extremamente eficiente na produção primária. O próximo passo natural é aprofundar a industrialização da cadeia: alimentos processados, biocombustíveis avançados, bioquímica, proteínas com maior grau de transformação”, comenta Ongaro. Segundo ele, a integração com a União Europeia pode facilitar esse movimento, mas ele depende sobretudo de decisões internas. Há também um fator relevante do ponto de vista macroeconômico: previsibilidade institucional.

Na visão do economista, um acordo com a União Europeia sinaliza estabilidade de regras no longo prazo. Isso tende a reduzir percepção de risco e estimular investimentos em tecnologia agrícola, armazenagem, logística e transformação industrial. “Capital mais acessível e ambiente regulatório previsível são elementos centrais para ampliar a competitividade do agro brasileiro”, ressalta Ongaro.

Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas e reorganização das cadeias produtivas, diversificar parcerias comerciais fortalece a posição estratégica do país. O acordo, portanto, vai além das cotas. Ele pode servir como instrumento de elevação de padrão produtivo, fortalecimento institucional e ampliação de competitividade.

“No fim, a questão central não é apenas o volume autorizado para exportação. É como o Brasil utilizará esse acesso para consolidar seu agro como setor cada vez mais moderno, eficiente e integrado às cadeias globais de maior valor agregado”, conclui Ongaro.

 

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